A continuidade da ação atualiza os dias pretérios, difundindo-os no momento que passa transformando tudo o que foi, no agora e tudo o que se viveu, continua nítido na memória como se ainda estivesse acontecendo.
Quando se corta a corrente emotiva dos fatos e das impressões, o passado então começa a existir.
Todos aqueles que deixaram de fazer o que faziam, experimentam essa dor. É uma dor que valoriza os pormenores olvidados e descobre a poesia das coisas que desapareceram ao longe, na indecisão do horizonte, na poeira dos caminhos.
Era assim que eu, coberto de lepra, me sentia até encontrar-me com Jesus. Toda a minha vida passada era então relembrada e cada momento vivido mesmo aqueles que não foram bons, tinham agora um valor inestimável. Era como um filme a passar em minha mente me transportando às mais remotas recordações.
A dor do físico e da alma se confundiam. A solidão me atormentava, melhor seria que o meu cérebro paralisasse para não trazer à lembrança tudo o que eu já havia vivido. Forçosamente abandonado, cobrindo-me de trapos para esconder a pele tão feia. A febre a provocar delírios, a insônia enchendo-me de agitação.
A baixa estima, o orgulho ferido como se no meu peito não batesse um coração.
Em vão alguns livros me instruíram sobre a perversidade dos homens e as desgraças inseparáveis da humanidade, meu coração recusava-se acreditar neles. Imaginava sempre a companhia de amigos sinceros e virtuosos; esposos que combinavam e que a saúde, a mocidade reunidas cumulavam de venturas. Parecia me vê-los vagando juntos entre arvoredos mais viridentes e mais frescos que aqueles cuja sombra me acolhia, iluminados por um sol mais radioso do que que aquele que me iluminava e sua sorte parecia-me tanto mais digna de inveja quanto mais miserável a minha ia se tornando.
Na primavera, quando o vento soprava sobre o vale, sentia-me penetrado por seu calor vivificante e estremecia involuntariamente. Assaltava-me um desejo inexplicável e o sentimento confuso de uma felicidade imensa que eu poderia desfrutar mas que me era recusada. Fugia então de minha cela, vagueava pelas campinas para respirar mais livremente. Procurava não ser visto por aqueles mesmos homens que meu coração desejava encontrar. No alto da colina oculto entre as urzes como um animal feroz, meus olhares convergiam-se para a cidade. Via de longe e com olhos de inveja. Seus felizes habitantes que mal me conheciam.
Estendia-lhes as mãos gemendo e pedindo-lhes meu quinhão de felicidade e em meu desespero estreitava em meus braços as árvores da floresta, pedindo a Deus que as animasse para mim como se fossem meus amigos. Mas as árvores continuavam mudas, sua fria casca me repelia e nada tinham em comum com o meu coração que palpitava. Prostrado pela fatiga, cansado de viver, arrastava-me de volta ao meu refúgio expondo a Deus os meus tormentos. Só Ele fazia retornar um pouco de conforto a minha alma. O único laço que me prendia ao restante dos humanos era um cãozinho que havia muitos anos se dedicava a mim. Devido sem duvida a sua feialdade fora escurraçado por todos, magro, mau-tratado, escolhera para o seu refúgio a minha habitação. Era com certeza o meu maior tesouro. Agradecia a Deus por conceder-me aquele amigo. Mas fui acometido de mais um desgosto apesar do cuidado que eu tinha, o cãozinho às vezes fugia e os habitantes da cidade alarmavam-se com medo que ele pudesse transmitir o germe da minha enfermidade. Então, foram a minha casa para o executarem e o fizeram em minha frente. Impossível descrever aquela dor.
Era essa a minha situação até encontrar-me com Jesus. Um dia, sentado sobre uma pedra refletindo sobre a minha triste sorte, avistei lá longe, próximo as duas bétulas que terminavam a cerca uma grande multidão seguindo um jovem. Levantei-me e agucei os olhos e percebi: era Jesus de Nazaré, de quem já havia ouvido falar. Enchi-me de esperança, de uma alegria jamais sentida e a despeito de tudo fui ao seu encontro gritando com toda a força que me era possível e prostrado de joelhos clamei: Mestre tem misericórdia de mim. Tenho ouvido falar dos teus milagres e sei que se quiseres podes purificar-me. E Jesus tomado de compaixão tocou em mim e disse: Quero, fica limpo! E naquela mesma hora toda a lepra desapareceu.
Tornei-me o homem mais feliz de toda a terra. Voltei para o seio da minha família, abracei os meus amigos e posso lhes dizer com toda a certeza. Seja qual for o seu problema, a sua enfermidade, só Jesus Cristo tem a solução. Amém.
A cura de um Leproso by Ila Lins Alcântara is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
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