Um honrado fazendeiro
De muitas propriedades
E grande soma em dinheiro.
Porém, vivia muito sozinho
Tinha apenas um filhinho
Que era o seu companheiro.
Vivia ele e o menino
Com dois ou mais empregados
Tinham mais alguns criados
Que os ajudavam em tudo.
A mãe daquele menino
Desde os cinco anos seus
Já havia sido levada
Pra morar junto de Deus.
Entendiam-se muito bem
O pai com o seu filho amado
Que muito o respeitava
Tudo que ele gostava
O filho compartilhava
Os dois gostavam de artes
E às vezes viajavam juntos
Para comprar quadros fabulosos.
Van Gogh, Pablo Picasso
E outros artistas famosos.
Mas tudo um dia tem fim
E é ilusório nessa terra
E aquele filho cresceu
E foi convocado pra guerra.
Foi uma tristeza muito grande,
Tudo perdeu o sentido.
E aquele filho querido
Despediu-se do seu pai
Com o coração partido.
Ficou ele então sozinho,
Já não havia mais alegria
Os dias iam passando
Uma notícia não tinha.
Em total desalento
Foi perdendo a saúde,
A vontade de viver,
Definhando a cada dia,
Pensando só em morrer.
Um dia já bem cansado
Farto de tanto sofrer
Pediu a um empregado
Que levasse enfim para dar
Uma pequena volta
Em seu já belo jardim.
Depois ficou ali assentado
Sentindo a brisa do mar,
Quando viu que chagava um homem
Em seu portão a chamar.
Era um homem elegante
Educado cidadão
Com jeito de oficial
E uma encomenda na mão.
Aqui estão os pertences do seu filho, cidadão.
Trago-lhe uma informação
Numa missão que me doe,
Machuca meu coração.
Seu filho é um herói,
Morreu lutando,
Honrando sua nação.
E aquele homem arrasado
Ali, paralisado não ousava levantar os olhos
Pra encarar o capitão.
Contemplando só as lágrimas
Que caiam pelo chão.
Amargurado, infeliz,
Ele não suporta mais
Cada dia mais doente,
Debilitado, incapaz.
Os dias iam passando
Sem nenhuma alegria
Quase não se alimentava
Um viver angustiante
Quando chega a seu portão
Outro moço elegante.
Na mocidade que exibia
Tinha mais ou menos a idade
Que o seu filho teria.
Trazia nas mãos um pacote
Embrulhado pra presente
Que a ele ofereceu:
Senhor, esse presente é seu!
É o retrato do seu filho,
E quem o pintou fui eu.
É a minha gratidão
Por tudo o que aconteceu.
Para que eu não morresse,
Seu filho morreu em meu lugar
Foi ele quem me defendeu.
Era muito sofrimento
Para aquele homem debilitado.
Já lhe faltavam as forças
Estava prestes a morrer.
Chamou seu advogado
Pra algumas coisas resolver.
Levou-o até o escritório,
Deu-lhe algumas instruções:
O que fazer com o seu dinheiro.
Tomou todas as decisões.
Partiu naquela mesma tarde,
Na calma de um passarinho
Estava tudo acabado
Já não estava mais sozinho.
Houve muito choro e comoção.
Ele fora um bom homem
E pelo bom coração
Foi sepultado com o respeito
De toda a população.
Passado o período do luto
Acalmadas as emoções.
O advogado anunciou
Com grande divulgação
O leilão de todas as peças
Que estavam em exposição.
Foi aquele alvoroço
Veio gente de todo lugar
Todos queriam ao menos
Uma peça arrematar.
Quando enfim chegou a hora
Para o leilão começar.
Bateu-se então o martelo
Para o lance inicial.
O leiloeiro trouxe a peça.
Era um retrato afinal.
Todos falaram em coro:
Isso aí não tem valor!
É um retrato mal pintado,
Nem se sabe quem pintou.
Queremos obras de arte,
Estamos aqui pra isso!
Mais o leiloeiro insistia
Com o retrato na mão.
Cinco reais, quem dá mais?
Nem uma oferta.
Só revolta e confusão.
Foi quando o jardineiro
Que trabalhava na mansão
Deu um lance um pouquinho a mais,
Disse: Eu quero!
Mas só tenho dez reais.
Bateu-se então o martelo.
E tudo silenciou.
Foi grande o burburinho
Todos de uma só vez a falar
Enfim todos esperavam
O leilão recomeçar.
Mas o leiloeiro anunciou
Em alta voz para todos:
Muitas atenção meus ouvintes,
Eu tenho uma informação.
Muito obrigado a todos,
Está encerrado o leilão!
O burburinho aumentou
Ninguém queria aceitar,
Mas veio o advogado
Com o documento na mão
E começou a falar.
Foi a vontade expressa
Do dono da exposição
Que fosse mesmo essa peça
Do pintor desconhecido
E que alguns não vale nada
Que fosse arrematada
Hoje aqui nesse leilão.
Quem arrematasse essa peça,
De bom grado e coração
Seria também o dono
De toda a exposição,
De toda a sua riqueza,
Inclusive essa mansão.
O Bondoso Pai by Ila Lins Alcântara is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
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